curiosidades e testemunhos

Não ao Milan

não ao milan

 

O clube italiano pediu o preço do passe de Tostão. Carmine Furletti descartou o negócio: “Tostão é patrimônio de Minas! Não sai daqui nem por um milhão de dólares. O problema do Cruzeiro não é dinheiro. Nosso objetivo é crescer cada vez mais.”

 

Enchendo as burras alheias

 

Antes da decisão, o Cruzeiro venceu o América jogando com os aspirantes. O primeiro jogo depois da conquista a Taça Brasil seria contra o Atlético. Cartolas alvinegros contavam com o entusiasmo da torcida cruzeirense para faturar um dinheiro extra às vésperas do 13º salário. Previam renda de 70 milhões. Mas se o Cruzeiro resolvesse lançar, de novo, os aspirantes, Gerson dos Santos, treinador alvinegro, prometia lançar seu time infanto-juvenil.

O Cruzeiro teve de escalar os titulares, embora estivessem cansados pela decisão e pelas festas. O problema é que, no domingo, os aspirantes decidiriam o campeonato da categoria com o Banlavoura (Cruzeiro 4 x 2, na Alameda, estádio do América). A renda do clássico de Cr$56.266.900 ajudou os emplumados a pagarem suas contas.

O jogo terminou 1 x 1. Laci marcou aos 28 do 2º tempo para  Atlético-MG e Evaldo empatou aos 47. Furibundos, torcedores e cronistas alvinegros disseram que o gol foi marcado no 3º tempo.

Do Paraná, chegou a notícia de que o bicampeão, Ferroviário (um dos antecessores do Paraná Clube), dispensara o Londrina e queria enfrentar o Cruzeiro em seu jogo das faixas. O Cruzeiro estava virando mina de dinheiro.

 

Como você viu o jogo?

 

 Amarcord. O Bairro Universitário inteiro não tinha mais do que meia dúzia de aparelhos de televisão. Eu, meu pai e meus irmãos assistimos ao jogo na casa do atleticano Gumercindo Ferreira, o Gomes. Adultos – Beiçarra, Pernilongo, Valentão, Bené Mula Preta e outros - no sofá e nas cadeiras da Copa tomando, vez ou outra, café servido pela Dona Teco.

Criançada esparramada pelo chão da sala. Retardatários na janela. Lotação máxima. Chovia muito em São Paulo. Pernilongo provocou Valentão: “É cumpadi, hoje, cê móia até os ossos!” Valentão, rebateu: “Se onça num me dá medo, chuva é que vai dar?”. E continuou impávido acompanhando a transmissão da TV Itacolomi.

Quando Dirceu empatou, o foguetório foi impressionante. Na sala, confraternização geral. Não era o Cruzeiro, era Minas vencendo outro Campeonato Brasileiro. Tal qual o de 1963. Descontração geral. “O Santos tá entregue!”, comentou alguém. “Nem Pelé dá jeito nisso”, emendou outro.

Preocupado, mesmo, só o Bené, que fez menção de picar a mula. E foi. Não sem pedir um guarda-chuva emprestado ao Gomes. E, antes que a chuva engrossasse, deu no pé. Com o guarda-chuva aberto para se proteger do toró que caia em São Paulo. Em Belo Horizonte, o céu estava mais estrelado do que nunca. Como a camisa do novo campeão brasileiro!

 

Enfim, o mundo!

 

Em 1950, o Atlético excursionou pela Europa. Voltou autoproclamando-se campeão do gelo. Hoje, provoca risos. Na época era motivo de inveja para os torcedores rivais. Pra não ficar pra trás, o América também foi à Europa em 1956 e voltou botando a maior banca.

E o pior, até o pequeno Bela Vista, de Sete Lagoas, também deu um jeito de excursionar pelo Velho Mundo. Apanhou feito gente grande, mas voltou com uma boa história na bagagem: empatou com o Real Madrid no Santiago Bernabeu!

Só o Cruzeiro continuava cercado pelas montanhas de Minas. Mas o título brasileiro deu-lhe a sonhada oportunidade de jogar no Exterior. Aconteceu em 19 de fevereiro de 1967 no Estádio Olímpico de Caracas, contra o Deportivo Galícia.

O único gol da partida saiu no minuto final. Lembro-me do mais importante locutor esportivo da época, Jota Júnior, da Itatiaia, a emissora que dizia ter aberto para Minas os caminhos do mundo, gritar: “Gooooolllll de Evaldo… Vai buscar lá dentro, Perez!”

 

40 anos depois

 

Alguns jornalistas e torcedores insistem em diminuir o feito do Cruzeiro. Tentam cassar o título de campeão brasileiro de 1966 conquistado pela Academia Celeste após 30 jogos (25 vitórias , 4 empates e 1 derrota).

Pior: tentam equiparar a Taça Brasil, único torneio nacional oficial de clubes da época, à Copa do Brasil, o segundo dos dias atuais. Dando nomes aos bois: corintianos e são-paulinos, porque seus clubes nunca disputaram a competição. Por incompetência, jamais conseguiram sequer um vice-campeonato paulista que lhes permitisse tentar um vôo mais alto.

Eram clubes domésticos. Assim, seus torcedores encastelados na mídia, propõem a subtração pura e simples de três títulos do Palmeiras e seis do Santos, incluídos os da Taça Brasil e da Taça de Prata. Esta, apenas uma das várias denominações que o Campeonato Brasileiro recebeu ao longo dos tempos.

O outro grupo de recalcitrantes, infinitamente menor e absolutamente paroquial, é dos torcedores do Atlético-MG. Estes, contudo, estão justificados. Como só possuem um título importante no currículo, têm tempo de sobra pra cuidar dos títulos alheios. Nenhum desses grupos, contudo, pode apagar a maior e mais heróica página da história do Cuzeiro Esporte Clube, o mais querido de Minas.

 

 

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