primeiro jogo no mineirão: primeiro tempo

Cinco gols

lance cruzeiro santos

Lance do jogo no Mineirão

foto: Estado de Minas

 

A história do 1º tempo só pode ser contada por meio dos fantásticos – pela quantidade e qualidade – cinco gols da Academia Celeste. Tudo o mais que se disser, é dispensável. A 1 minuto, Evaldo recebeu passe de Tostão no meio de campo e percebeu Dirceu correndo em direção ao gol. O lançamento saiu preciso. Quando o meia se preparava para concluir, o lateral-esquerdo Zé Carlos, tentando desarmá-lo, marcou contra: 1 x 0. Aos 5, Dirceu recebeu de Evaldo e serviu a Natal. O ponteiro driblou Zé Carlos e chutou forte: 2 x 0. Aos 20, Oberdan saiu jogando, perdeu a bola para Dirceu, levou dois dribles e saiu de cena. Com a visão desimpedida, o Dez de Ouros chutou violentamente de fora da área: 3 x 0. Aos 39, a defesa do Santos sofreu intenso bombardeio. De dentro da área, Hilton chutou e Mauro salvou. No rebote, Evaldo disparou outra bomba, mas Oberdan impediu o gol. A terceira tentativa coube a Dirceu Lopes. Em vez de força, jeito: 4 x 0. Com a palavra o autor da obra prima: “Meu forte sempre foi o corte de fora da área. Como tinha muita velocidade e, naquela época, o futebol era mais solto, qualquer bola que eu apanhasse no meio de campo era um perigo para o adversário. Naquele lance, recebi a bola na entrada da área. Dei um corte no zagueiro, passei a bola do pé direito para o esquerdo e bati. Ela fez uma curva e enganou o Gilmar, que ficou agarrado na trave. Foi um golaço”. Aos 41, Dirceu driblou Mauro dentro da área e foi derrubado por Oberdan. Pênalti. Tostão fez inacreditáveis 5 x 0.

 

 

primeiro jogo no mineirão: intervalo

A fúria do Rei

Pelé

Pelé em uma foto da época

 

No final do 1º tempo, a caminho do vestiário, Pelé ouve o couro provocador da torcida mineira: “Cadê Pelé? Cadê Pelé?”. O Rei acenou para a torcida com a mão espalmada. Cinco gols? Não, cinco vezes campeão brasileiro, ele explicou. A verdade, contudo, é que, naquela noite, marcado individualmente por Piazza, Pelé não viu a cor da bola.

 

primeiro jogo no mineirão: segundo tempo

Pá de cal

lance cruzeiro santos

Disputa no meio de campo
foto: Estado de MInas

 

O Cruzeiro voltou relaxado pensando em barganhar o jogo: tocaria a bola e o adversário se contentaria em evitar mais gols. Mas, ao invés de aceitar o fato consumado da derrota, o Santos foi à luta pensando em remontar o placar. Nos vestiários, seus jogadores ouviram poucas e boas do treinador Lula: “É preciso parar esta linha de qualquer forma, se não parar no grito tem que ser no tapa, na botina, não pode é continuar desta forma. Eles estão fazendo a nossa área de avenida”. Deu certo. Aos 6 e aos 10, Toninho Guerreiro marcou: 5 x 2. A torcida assustou-se. Pelé tinha fama de, quando provocado, superar-se e virar resultados tidos como definitivos. Mas Tostão, Dirceu e Piazza retomaram o controle do jogo. Tocando bola com rapidez, o Cruzeiro voltou a colocar o Santos na roda. E a pá de cal sobre o pentacampeão brasileiro foi atirada aos 27 minutos. Evaldo recebeu passe de Tostão, driblou Oberdan e chutou forte, Gilmar deu rebote. Dirceu apareceu do nada para tocar para as redes: 6 x 2. Estava de bom tamanho. Daí em diante, os times limitaram-se a exibir sua técnica refinada sob aplausos ininterruptos da torcida. Era preciso economizar energias para o jogo decisivo, uma semana depois, no Pacaembu.

 

 

primeiro jogo no mineirão: segundo tempo

Armandinho X Pelé

Armando Marques

Armando Marques era considerado
uma celebridade na época

 

O árbitro carioca Armando Rosa Castanheira Marques era uma celebridade. E, como tal, também resolveu deixar sua marca no jogo que o Brasil inteiro assistiu pela televisão. Aos 30, nervoso, incapaz de se livrar da marcação pessoal, Pelé chutou Piazza. Formou-se o bolinho. Procópio pediu explicações e ouviu um palavrão. Armandinho – era como a torcida se referia ao árbitro – expulsou os dois.  Depois do jogo, Pelé estava bravo: “Num jogo apitado por Armando Marques, pode-se esperar: de uma hora para outra serei expulso. É uma velha mania daquele juiz, que ganhou fama justamente por visar-me mais que qualquer outro”. Segundo o Rei, tudo não passou de uma troca de palavras ríspidas, que não justificariam as expulsões. E, cada vez mais bravo, arrematou: “Mas ele achou que era hora de mandar-me para o vestiário no jogo de ontem, que estava do jeito que ele gosta para ser vedete: público enorme e torcida vibrante”. Procópio, que jogou com o tornozelo machucado, também protestou: “Não entendo, até agora, porque fui expulso. Eu só disse ao Pelé que ‘apelar, assim, não!’. Ele respondeu com um palavrão e o juiz estava perto. Pelé ainda tentou convencer o juiz que eu era inocente e que nada havia dito. Tempo pedido.”

 

 

primeiro jogo no mineirão: segundo tempo

Felício X Athiê

Felicio e Athie

Felício Brandi mais uma vez justificou seu apelido: Raposa

 

Nicolau Moran, diretor, e Athiê Jorge Cury, presidente do Santos, num gesto de cortesia, mandaram a Taça Brasil para vestiário do Cruzeiro. Queriam que ela ficasse em Minas até a segunda partida. Supersticioso, Felício Brandi, não deixou ninguém chegar perto do troféu. Deu uma espiada de longe e mandou devolvê-la aos paulistas: “Tá bom, é muito bonita, mas, agora que já a conhecemos podem levá-la de volta; semana que vem, vamos buscá-la em São Paulo”. No outro vestiário, Athiê dava entrevistas: “Em São Paulo, nossa vingança será terrível!”

 

 

primeiro jogo no mineirão: fim de jogo

É dinheiro que não acaba mais

 

A renda foi recorde no futebol brasileiro. Superou os 177 milhões do Fla 0 x 0 Flu que decidiu o Campeonato Carioca em dezembro de 1963. Daqueles fabulosos 223 milhões, o Cruzeiro ficaria com 75%. Mesmo assim, o clube não pagou bicho pela vitória, O título, sim, se conquistado valeria 2 milhões para cada jogador. Uma fábula!

 

Cruzeiro 6 x 2 Santos

quarta-feira, 30 de novembro, no Mineirão, Belo Horizonte, jogo de ida das finais da Taça Brasil 1966, em 30 de novembro de 1966

Juiz: Armando Marques (carioca)

Bandeiras: Joaquim Gonçalves e Euclides Borges (mineiros)

Expulsões: Procópio e Pelé

Renda: Cr$223.314.600

Público pagante: 77.325

Público presente: 90.000 (estimado)

Gols:

Zé Carlos (contra), Natal, Dirceu Lopes, Dirceu Lopes e Tostão, no 1º tempo; Toninho, Toninho e Dirceu Lopes, no 2º

Cruzeiro:

Raul, Pedro Paulo, William, Procópio e Neco; Wilson Piazza, Dirceu Lopes e Tostão; Natal, Evaldo e Hilton Oliveira. Tec: Airton Moreira

Santos:

Gilmar, Carlos Alberto Torres, Mauro Ramos de Oliveira, Oberdan e Zé Carlos; Zito e Lima: Dorval, Toninho Guerreiro, Pelé e Pepe. Tec: Lula.

 

 

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